sábado, 15 de setembro de 2012

À tua espera (soneto)

Em seus passos o tempo é mais ronceiro

Quando sôfrego, eu fico à tua espera

Qual Natura aguardando a Primavera

No rigor da estação que faz ludreiro.


Parece um indolente caminheiro

O Tempo, e tal delonga desespera

De ver-te, meu ser, como ansiosa era

Penélope em rever seu companheiro.


Move-te na lepidez qual das vagas

Que as areias, frementes, vão beijar.

Ó doce amor, assim vinde e me afagas!


Como Zeus obstinou-se carregar

De Tiro, Europa, a tão distantes plagas,

Cúpido de amor vem-me igual raptar!
Afogamento

Oh! Sinto-me como afogado
No mar revolto das ilusões.
Mas eu me afogo por me ter lançado
Sob o vento proceloso das paixões.
Avariada era a falua
Que por embarcação eu tomei
Em hora trevosa e sem lua
E, pois, os riscos, ignorei.
Nauta do barco fendado do impulso
Na ânsia fui de meu coração tão convulso!
E soçobrei, soçobrei...
Ó tu, que ouves meus gritos
Da fatal morte de temor,
Salva-me deste maldito
Oceano do maldito amor!
Oh! Não vês meu afogamento?
Vem e dá-me um salvamento!
Livra-me deste instante de horror!
Nesta hora quem me dera,
O Touro, que Europa,
Por sobre águas carregou,
Descesse da celestial esfera
Salvasse-me e se lho pudera,
Pertencesse-me como a ela,
Logo após que a raptou...
Quando eu não te vejo (poema).

Por: Val Freitas

Amor, quando eu não te vejo,
O meu coração entristece.
Qual o dia mais eclipsado
Em que o Sol fulgente houvesse
Sob o véu cendrado
De um tempo que parece
Marcha dum lúgubre cortejo.

Paixão, quando eu não te vejo,
O meu úmido olhar de pranto,
Vertente de águas da melancolia,
Roreja-me as pálpebras quanto
O rocio à flor na manhã fria.
Não te ver dói-me tanto!...
Ver-te sempre é o que almejo.

Ah, insuportável dilação do ensejo
De contemplar-te o cenho divinal!
Para qual devoto à imagem de seu deus
Render-te, divino mortal,
Adoração, que não fazem os ateus
A um deus oculto, ou como tu, real,
Cujos olhos hão celeste lampejo!

Oh! anjo meu, se não te vejo,
Os meus lábios inumam o riso.
Tua falta cala-me o gênio álacre
E o humor não balouça o seu guizo.
Do desgosto, sorvo o fel acre
E no dissabor eu poetizo.
"Tristeza, quão mau é teu harpejo!"

Ó doce amante, enfim, quando te vejo?
Amanhã, logo após o Ocaso,
Quando a brisa mitiga o tempo cálido?
Talvez antes do enegrecer, acaso? (...)
Oh, não duvides se, pois, ficando esquálido,
Souberes-me morrendo por teu descaso,
De meus ais de haveres algo inválido
Feito, que o vento te sussurrou e pouco caso!
Daí então, um meu derradeiro desejo
Realizes carregando um lis álbido
Em meu funéreo cortejo.
E saibas o quanto fui ávido
Por um teu doce beijo.

Em: 25/03/2012.