sábado, 22 de fevereiro de 2014

Eu quis.

Eu quis a poesia dos teus lábios
Mas eles se fizeram túmulo ante os meus.
Eu quis a ternura de tuas mãos
Mas negaste-me a delícia de segurar nelas.
Eu quis o ardor de teu corpo
Mas a mim te fizeste cadáver frio.
Eu quis o néctar das noites gozosas
Mas deixaste-me o dissabor dos dias acres.
Eu quis viver o céu ao teu lado
Mas um purgatório interpôr-se entre nós
Eu quis casar-me com tua alma
Mas tua alma estava em núpcias com teu ego.
Eu quis te ofertar poemas e lírios
Mas amassaste meu coração e escarraste nas flores.
Eu quis ser todo teu
Mas a minha totalidade era-te tenebrosa.
Eu quis o teu amor valioso
Mas só deste-me migalhas de afeto.
Eu quis contigo ver encantos de aurora
Mas deixaste-me o seio de emoções nubladas e olhos em temporal...

Valdemar Freitas.

17/02/2014.
O Corpo

Do ventre à tumba
A inocência beija
A luxúria lambe
A morte palideja
O verme come
No seio da catacumba.

Valdemar Freitas

Em: 21/02/2014.
Dentro em mim

Ah! esses espaços selváticos do meu ser!
Ah! esses céus abismais!
Ah! essa languidez do meu gênio!
Ah! suspiros e ais!

(Valdemar Freitas)
Bulício

Há um bulício em meu ser
Pássaros a cantarem nas cordas da garganta
Fera a adentrar a recôndita "terra santa"
Coração aromas a recender...

É o quê? É o quê?...


 (Val Freittas)
Carne de lua.

Essa carne de lua
Cálida,
Em minha boca, nua,
Sápida,
É pêssego que o goza
Paladar. 


(Val Freittas)
E se...

E se faltar o sol da poesia
E se o real desasar a feeria
E se à febre fizer sangria

E se um eclipse anoitecer o dia
E se o amor não tiver valia
E se o deleite ceder à agonia
E se o Universo urdir vilania...

...Escreva versos luarentos
Devasse dos sonhos o aposento
Tremule no ardor do sentimento
Maldiga os céus por seus tormentos
Odeie os amorosos momentos
E jogue, ao fim, a pena ao vento.

(Val Freitas)

Em: 30/10/13.
Perdão, amor!

"Eu quis escrever-te versos de luz
Com a tinta dourada de teu Sol...
Perdão, amor! Não pude
Gastar das altitudes
O que acende meus dias
Da pós-aurora ao Arrebol."

(Val Freitas)
Teu amor, minha pureza

Amor, quantos sóis a esperar o teu...
Quantas luas no vagar de Saturno...
Quantos trenos em cumes noturnos...
Quantas desditas Vênus me deu!...

Em quantos giros zodiacais
Tua luz me veio?
Oh, quantos penares e ais
Estremeceram meu seio!

Eu errei em chãos áridos
Esmeraldas vi onde não há lume
De rosas em lodo hauri perfume
E Amor me foi anjo hórrido.

Em quantos giros zodiacais
Tua luz me veio?
Oh, quantos penares e ais
Estremeceram meu seio!

Na desesperança qual cão impuro
Deitei-me nas paixões-carniças!
Mas teu amor acendeu-me o escuro
De minh'alma e fê-la castiça.

Em quantos giros zodiacais
Tua luz me veio?
Oh, quantos penares e ais
Estremeceram meu seio!...

(Val Freitas)

Em: 12/11/2013.
Sem medidas.

"Eu sou oito ou oitenta.
 Tudo ou nada!
 Calidez ou umidade
 Touro bravio ou fera domada. 
 Eu sigo a volição da matéria 
 Ou me repouso no leito da alma.
 Eu amo os luzeiros da Treva 
 Odeio as horas ensolaradas! 
 Eu durmo bem em catre do misérrimo
 Tal qual sob os lençóis da opulência.
 Eu sou controle e incontinência
 Céu enxuto ou borrasca inopinada.
 Eu sou suor ou calafrio
 Paciente ou sem pavio
 Garapa ou água salgada.
 Eu busco o vício ou a virtude
 A dissolução ou a santidade
 Quero o asseio ou o grude
 O gozo mundano ou da eternidade. 
 Eu vomito o que é tépido. 
 Tenho pés preguiçosos ou lépidos. 
 Não sei o que é meio.
 Vivo nas extremidades."

 Valdemar Freitas 


 Em: 10/08/2013
Alta paixão (Soneto)

Foi pela seta aguçada de Cupido
Que alta me ardeu nas veias furiosa
A Paixão, como a febre impiedosa
A desvairar o ser acometido.

Meu peito sem broquel, desprotegido,
Fendeu a seta infalível amorosa
Quando uma viridência mui formosa
Contemplei num olhar langue e contido.

Meus instintos seguiram do Desejo,
O séquito, quão lassas as bacantes
Baco seguindo em álacre cortejo.

A avidez tinha a carne dos instantes
De deleite, a despirem sempre o pejo.
Só, gozei em frenesins tão delirantes.